23/01/2016
CORPO MÓVEL

Sabyne Cavalcanti

[...] o espaço privado deve saber abrir-se a
fluxos de pessoas que entram e saem, ser o
lugar de passagem de uma circulação
contínua, onde se cruzam objetos, pessoas,
palavras e ideias. Pois a vida também é
mobilidade, impaciência por mudança, relação
com um plural do outro.

Michel de Certau e Luce Giard

Artista e mobílias integram-se na imaterialidade da memória, no
cotidiano que se tece aberto ao fluxo de pessoas, sabedor da passagem do tempo. Se a vida é mobilidade, o corpo é móvel, criatura e objetos transitam por lugares, oscilam no entremeio de histórias que deixam suas marcas na pele, na madeira do móvel, no azulejo demolido. Sabyne Cavalcanti franqueia o
lugar onde mora, deixa abertas as portas do Mataquiri Museu para que a “relação com o plural do outro” torne-se plena, e assim estabeleça as trocas, possíveis no campo do afeto e da arte.
Dois lugares, dois museus integram um percurso expositivo que inicia em Moita Redonda, município de Cascavel, comunidade de ceramistas onde a artista reside. Mataquiri Museu e MAC-CE se entrelaçam e juntos formam o encontro do Corpo Movél que se abriga na interligação de lugares, no museu casa que ativa a mobilidade do público e o convida a atravessar a ponte
Fortaleza-Cascavel, movendo o seu próprio corpo para encontrar outros num circuito expositivo movente como o mundo contemporâneo.
A morada, recorrente na obra de Sabyne Cavalcanti, significa a
proximidade com a natureza, com a terra, com a grama, com o barro que nasce da lama para moldar-se sobre o corpo. Tal qual uma arquiteta, Sabyne organiza espaços que abrigam sentimentos e ações de aproximação entre
seres, lugares e objetos. Obras anteriores como SI, Casa Oca e
Suprasensação oferecem moradas construídas com grama, cavadas na terra ou moldadas no próprio corpo para transforma-se em habitação do ser. O colecionismo de mobiliários agora a conduz a outras moradas, de caráter museológico que se deixam invadir por histórias que exalam dos objetos expostos, advêm das duas casas museu. São espaços emendados, interligados pela terra, pela planta que floresce no quintal, pelas obras que se espalham junto às árvores, pelo urbano que se dá em outro espaço na agitada aproximação dos carros, do asfalto. O
museu e a artista convivem e imbricam-se no dia-a-dia. A coleção de mobiliário, retirada das camadas subterrâneas da vida, dissemina-se por salas e quartos onde estão abrigados o berço branco em que Sabyne dormiu, o arquivo da escola em que estudou, a sapateira proveniente do mercado de
Cascavel, o grande armário doado pelo amigo José Tarcísio. São objetos que, como outros, trazem com eles o desgaste do tempo, cheiros, intimidades encobertas por lembranças. As digitais perdidas aguardam o toque de novas mãos e o objeto adquire uma nova função: a da arte.

Marisa Mokarzel